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segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Anus Eleitoralis

Para quem gosta de eleições, 2009 vai ser um ano em cheio. Não vamos ter um, nem dois, mas sim três actos eleitorais ao longo do ano, embora nesta altura ainda paire no ar a possibilidade de se aglutinar as eleições legislativas e autárquicas para uma mesma data.

Seja a duplicar ou a triplicar, temos garantido um fartote de propaganda e promessa vãs, porque dêem as voltas que derem, sejam as eleições para o que forem, a ladainha dos nossos políticos é sempre a mesma.

Bastou estar atento aos noticiários deste fim de semana para se perceber que já vivemos em clima de eleições. Dum lado tivemos os líderes da oposição a criticar forte e feio o (des)governo e a anunciar que, sendo eleitos, vão fazer isto e mais aquilo e aqueloutro, ou seja, todos os clichés de quem está na oposição.

Do outro lado, tivemos o pomposo líder do (des)governo a criticar a falta de coerência e de vergonha da oposição, uma vez que só sabe criticar e são eles os grandes responsáveis pelo actual estado do nosso país, aproveitando para lançar já umas quantas pérolas, vulgo promessas, para o caso de serem reeleitos, de preferência com maioria absoluta. O costume.

Pessoalmente, já há muito que deixar de acreditar nesta classe política que temos por cá. Quem está na oposição só sabe fazer crítica destrutiva ao (des)governo, culpando-o e acusando-o de tudo e mais alguma coisa, aproveitando para ir deixando no ar umas ideias geniais que, caso fossem eles a mandar, iam retirar-nos do marasmo em que estamos atascados.

Quanto ao (des)governo, facilmente se percebe que faz precisamente o inverso, que é como quem diz culpa os seus antecessores pela estado lastimável e deplorável em que deixaram o país, motivo pelo qual não podem implementar as tão propagandeadas medidas milagrosas que iam fazer de nós uma nação de topo, ou então limitam-se a devolver as acusações e críticas com que são presenteados.

Ciclicamente os papéis invertem-se, com entrada em cena de novos protagonistas, mas nada disso altera o guião. Já era tempo desta corja ganhar vergonha na cara, mas eu sei que isso é pedir demais e que, se calhar, mais depressa ganho o euro milhões do que vejo aparecer em Portugal uma classe política credível.

Infelizmente tal não vai acontecer tão cedo, e se ainda existissem dúvidas acerca disso (como se tal fosse possível), aquilo que ouvi ontem do mais que provável líder do próximo (des)governo, que por acaso é o actual, deixou bem claro aquilo que nos espera. Lá veio a conversa da treta da descida dos impostos, do referendo acerca da regionalização ou do direito ao casamento entre homossexuais.

Baixar impostos é daquelas coisas que já perdi conta ao número de vezes que ouvi. Mesmo que baixem, eles facilmente vão arranjar maneira de nos sacar o dinheiro doutra maneira. Regionalização? Referendo? Se querem avançar com isso, uma vez que pedem maioria absoluta, deixem-se de tangas e assumam essa responsabilidade através de iniciativa parlamentar e não nos façam perder tempo.

Por fim, a abertura ao casamento civil entre homossexuais, algo que o Primeiro Minsitro de Portugal, suposto engenheiro com nome de filósofo, classifica como sendo, e passo a citar, uma vitória de toda a sociedade portuguesa. Porra, não me lixem. Chamem-me homofóbico, chamem-me os nomes que quiserem, mas se isto é o conceito de medida de fundo para um país em crise, vou ali e já venho.

Andaram um ano inteiro a atirar-nos areia para os olhos a dizer que não estávamos em crise e a apresentar estimativas irreais das taxas de crescimento económico. De repente, do nada, descobrem que afinal estamos mesmo em crise, por culpa da conjuntura mundial, e que ela é tão grande, mas tão grande, que obriga a fazer orçamentos suplementares logo em Janeiro, e uma das grandes medidas é possibilitar o casamento gay? Nas mãos desta gente vamos mesmo direitinhos ao fundo do poço.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

hipocrisia

Não me dou bem com a hipocrisia, com a mentira e com farsas. Ou seja, não sou em nada diferente da grande maioria das pessoas. Pelo menos nunca conheci ninguém que se assumisse ser algumas dessas coisas, e se alguma vez tivesse conhecido, garantidamente que não tinha criado qualquer laço de amizade com essa pessoa.

Não são só as situações de contacto directo com tais "mimos" que me deixam mal disposto. Vivemos numa sociedade hipócrita, onde algumas classes usam e abusam desses comportamentos, e nos tratam a nós, comuns mortais, como autênticos otários que engolem os sapos e seguem a sua vidinha como se nada tivesse acontecido.

Posso começar por falar na classe política, onde salvo raríssimas excepções, e são mesmo muito raras, não há nada que saia da boca de quem nos (des)governa que não soe a falso. Que merda de líderes nós temos, que se preocupam mais em fantochadas como fornecer computadores aos alunos da primária, do que em investir a sério na melhoria do ensino e na formação desses mesmos alunos.

Na recente vaga de frio que assolou Portugal, revoltou-me ver a celeridade com que a Câmara Municipal de Lisboa se prontificou a pôr em marcha um plano especial de contingência para apoiar os sem-abrigo, isto porque iam estar umas noites com temperaturas muito baixas. Não estou contra o apoiar-se quem precisa, muito pelo contrário, mas será que só deram conta que os sem-abrigo existem e precisam de ajuda, porque ia estar muito frio? É que quando voltar a estar só fresquinho, e não muito frio, os sem-abrigo vão continuar nas ruas, mas pelos vistos eles aí já vão ter que se desenrascar sem poder contar com o apoio camarário.

Hoje de manhã, ao ouvir o noticiário a caminho do trabalho, fiquei perplexo com mais uma pérola da hipocrisia que nos rodeia, e vinda duma imponente figura da nossa sociedade. Numa tertúlia na Figueira da Foz, o O Cardeal Patriarca de Lisboa alertou as jovens para o "monte de sarilhos" que é casarem com muçulmanos. Então, o lema do "amar o próximo" afinal é só conversa da treta?

Que fique bem claro que sou Católico por opção própria, embora assuma, sem qualquer pejo, estar desde há algum tempo de relações cortadas com a Igreja, por motivos que só a mim dizem respeito. Não me parece que seja com discursos destes, ou com a manutenção de lógicas retrógradas como ser abominável o uso de métodos contraceptivos, que a Igreja vai cativar as pessoas. Enfim, é este o mundo em que vivemos.


A hipocrisia existe, e existirá, como soberano absoluto de todos os poderes humanos, porque precisamos do tecido felpudo e opaco das mentiras para cobrir tudo o que por baixo da roupa nos resta ainda de hircino, de viloso e de selvagem. (Paolo Mantegazza)